O mercado brasileiro de infraestrutura retomou o crescimento dos investimentos, mas a engenharia nacional ainda não recuperou a capacidade empresarial que apresentava no início da década passada. A avaliação consta de artigo de Humberto Rangel publicado na CNN Infra, que reúne dados sobre faturamento, empregos e participação pública nos investimentos em infraestrutura.
A análise mostra uma mudança relevante na estrutura do setor. Antes de 2012, o Brasil mantinha um grande parque empresarial de construção pesada. Empresas nacionais participavam de projetos complexos em áreas como energia, mineração, petróleo, mobilidade e infraestrutura. Algumas também atuavam em mercados estrangeiros e disputavam contratos com companhias dos Estados Unidos, Europa e Ásia.
Naquele período, as 20 maiores construtoras brasileiras apresentavam faturamento agregado estimado em R$ 360 bilhões, considerando valores atualizados para 2025. Essas empresas empregavam aproximadamente 800 mil trabalhadores. Entre os principais grupos estavam Odebrecht, Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa, Queiroz Galvão, OAS e UTC.
Mudanças no setor de construção pesada
A partir de 2014, a construção pesada brasileira entrou em um período de forte retração. A Operação Lava Jato revelou práticas ilícitas que, segundo o artigo, precisavam ser combatidas. Entretanto, a forma como o processo avançou produziu efeitos sobre contratos, crédito, licitações e investimentos.
Entre as consequências apontadas estão a paralisação de contratos, a proibição de participação em determinadas licitações públicas, as restrições de crédito, a descontinuidade de investimentos públicos e a retração da economia.
O impacto pode ser observado na evolução das maiores empresas. Em 2025, o faturamento agregado das 20 principais construtoras brasileiras havia recuado para aproximadamente R$ 35 bilhões. Na comparação com o período de auge, a redução real foi próxima de 90%.
O mercado de trabalho também sofreu forte redução. O número de empregos diretos nas maiores empresas passou a ficar entre 150 mil e 200 mil trabalhadores. O resultado representa uma retração próxima de 80% em relação ao nível registrado anteriormente.
A diminuição das grandes companhias nacionais abriu espaço para grupos estrangeiros. Construtoras espanholas e chinesas passaram a ocupar posições de maior destaque no mercado brasileiro. Ao mesmo tempo, a engenharia brasileira perdeu parte da presença internacional que havia construído ao longo dos anos anteriores.
Os efeitos atingiram uma cadeia econômica extensa. Fabricantes de equipamentos, empresas de engenharia consultiva, fornecedores de materiais e prestadores de serviços especializados também foram afetados. Pequenas e médias empresas ligadas à construção pesada sentiram os reflexos da redução das grandes obras e da atividade das principais construtoras.
Capital privado assume papel central
A estrutura dos investimentos em infraestrutura também mudou. Atualmente, aproximadamente 86% dos investimentos são realizados pelo setor privado. A participação pública diminuiu diante das restrições fiscais da União e do elevado comprometimento das despesas obrigatórias.
Os números apresentados no artigo mostram a dimensão dessa transformação. Em 2014, os investimentos públicos em infraestrutura chegaram a R$ 99,4 bilhões. Em 2025, ficaram em aproximadamente R$ 45,1 bilhões. A queda real foi de 54,6% em onze anos.
A participação do setor público no investimento total também diminuiu de maneira expressiva. Em 2014, correspondia a 39,5%. Em 2025, representava apenas 16,1%.
O cenário revela uma diferença entre o volume total de investimentos e a capacidade da engenharia brasileira. O país voltou a direcionar mais recursos para infraestrutura, principalmente por meio de concessões e investimentos privados. Entretanto, as grandes construtoras nacionais permanecem muito menores do que eram há pouco mais de uma década.
Para Humberto Rangel, a recuperação da engenharia nacional deve ser tratada como uma questão estratégica para o desenvolvimento brasileiro. A proposta, conforme o artigo, não seria repetir os modelos anteriores, mas preservar capacidades empresariais necessárias para projetos de maior complexidade.
A discussão também envolve a capacidade do Estado de induzir investimentos em áreas menos atrativas economicamente e em projetos com maior impacto social. Com menor participação pública e uma estrutura empresarial nacional reduzida, o país enfrenta o desafio de ampliar sua infraestrutura sem perder competências técnicas acumuladas ao longo de décadas.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/silhueta-de-construcao_4291509.htm
