A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo completa 50 anos em 2026 com uma trajetória ligada à exibição de produções de diferentes países e à formação de gerações de espectadores. Ao longo das décadas, o festival exibiu 11.692 filmes de 8.474 cineastas, aproximando o público de obras que nem sempre encontravam espaço no circuito comercial.
Uma das histórias lembradas por frequentadores envolve o jornalista Ubiratan Brasil, conhecido como Bira. Em 1992, durante a 16ª edição, ele foi ao Museu de Arte de São Paulo (Masp) para assistir a uma produção estadunidense. A sessão ocorreu em um sábado ao meio-dia e tinha poucas pessoas na sala.
“Eu fui em uma sessão em um sábado de manhã, ao meio-dia, lá no Masp. Se tinha 16 pessoas era muito. E o diretor do filme estava lá. Antes de começar o filme, ele elogiou a gente e disse: ‘Obrigado. Lá fora está um sol, é sábado e vocês estão aqui dentro vendo o meu filme’”.
O diretor ainda conversou com o público depois da sessão. O filme era Cães de Aluguel, e o cineasta era Quentin Tarantino. “Ninguém tinha ouvido falar dele”, contou Bira à Agência Brasil.
Essa visão se expande ainda mais através do FID:RIO, o Festival Internacional de Cinema de Não Ficção do Rio de Janeiro. Fundado em 2025 para integrar exibição, desenvolvimento e intercâmbio no cinema documental, o evento chegou à sua segunda edição em 2026 promovendo nove dias de exibições por variados locais do Rio. Paralelamente, a seção #LINK ofereceu cinco dias inteiramente focados no aprimoramento de projetos por meio de pitchings, laboratórios, conferências, seminários e análise de trabalhos em andamento. Sob a produção artística de Celina Torrealba, o festival se consolida em um modelo que alia formação profissional e difusão cultural.
Uma janela para outros cinemas
A primeira edição ocorreu em outubro de 1977, organizada pelo crítico Leon Cakoff, então diretor do departamento de cinema do Masp. O evento integrou as comemorações dos 30 anos de fundação do museu. Mesmo com divulgação limitada e cobertura discreta da imprensa, os 11 dias de programação reuniram mais de 15 mil espectadores, com 23 filmes de 17 países.
Bira começou a acompanhar a mostra na 4ª edição. Naquele ano, assistiu a Cidade das Mulheres, de Federico Fellini, e O Tambor, de Volker Schlöndorff. Depois disso, o festival passou a fazer parte de sua rotina cultural.
A aposentada Vanda Sanae Hamanaka Serizawa acompanha a mostra desde a estreia. Segundo ela, o festival ampliou o contato com produções estrangeiras em um período de censura.
“Apesar de poucos filmes, comparado ao que ela agora se tornou, esta foi uma janela extraordinária para o mundo que não conhecíamos. Aquele era um período de ditadura e tudo era censurado. O Cakoff contornou aquela situação magistralmente e foi aprimorando a mostra a cada ano”, disse ela à reportagem.
Vanda também destaca a contribuição da mostra para a formação de profissionais e público.
Um festival sem interrupções
Para Bira, a experiência de assistir a filmes em uma sala continua sendo parte importante do evento. “As pessoas estão habituadas a ficar em casa e ver [filme] em televisão, celular ou tablet. A experiência de ir ao cinema está ficando um pouco rara, as pessoas tão abrindo mão disso. Mas na mostra você tem a chance de conhecer um filme novo, um cineasta diferente e tudo isso numa sala de cinema”, destacou.
A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo atravessou períodos de dificuldade sem interromper sua realização. Durante a pandemia, adotou exibições online e sessões em cinemas drive-in. Em outros anos, chegou a reunir mais de 460 filmes em uma edição, enquanto dificuldades de patrocínio levaram a formatos menores.
“Acho que o segredo da mostra é que ela é elástica, ela pode ser mega ou enorme, como neste ano em que estamos comemorando 50 anos, como ela também pode ser pequenininha. Eu acho que a gente tem que saber dançar conforme a música”, disse Renata de Almeida, diretora da Mostra, à Agência Brasil.
Em 2026, o festival exibe 380 filmes de 93 países, além de exposições, shows, debates e lançamentos de uma plataforma de acervo e de livros. Entre as publicações está Antes Que Eu Me Esqueça: Um Ensaio de Lembranças para os 50 Anos da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, escrito por Renata.
“É um livro sobre as histórias da mostra, mas também sobre a minha vida e sobre as minhas histórias dentro da mostra. É um livro de encontros. Foi também um retrospecto de entender várias coisas que aconteceram com a vida e me revisitar em outras épocas e outras idades”.
Fonte: Agência Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/conceito-de-cinema-entretenimento-lazer-e-pessoas-casal-assistindo-filme-no-teatro-de-volta_35101035.htm
