A expansão dos agentes de inteligência artificial no comércio eletrônico começa a alterar a forma como marcas organizam informações sobre produtos e serviços na internet. Em vez de disputar apenas a atenção dos consumidores, empresas passam a considerar também como seus conteúdos são interpretados por sistemas automatizados.
A mudança ocorre com o crescimento de ferramentas capazes de pesquisar produtos, comparar opções e até conduzir etapas de uma compra. Nesse cenário, estar disponível para a inteligência artificial pode se tornar tão importante quanto aparecer nos mecanismos tradicionais de busca.
“Quando você anuncia para seres humanos, mira os olhos, as emoções e a dopamina; mas, quando anuncia para agentes, apela para a lógica —uma lógica extremamente matemática”, disse Aviv Shamny, cofundador e CEO da Limy, uma “plataforma de busca com IA” apoiada pela empresa de capital de risco Andreessen Horowitz.
O movimento ocorre depois de anos em que muitos sites adotavam mecanismos para bloquear robôs. Algumas lojas, como a Amazon, também estão bloqueando determinados agentes de compras com IA.
Ao mesmo tempo, outras empresas tentam facilitar o acesso desses sistemas. Segundo relatório da Adobe, o tráfego proveniente de fontes de IA para sites de varejo dos Estados Unidos aumentou 393% em 2026.
Dados ganham importância no comércio
A expectativa é que a participação dos agentes no comércio eletrônico avance nos próximos anos. Pesquisa do Morgan Stanley aponta que, até 2030, os “gastos influenciados por agentes” poderão representar até 20% de todo o comércio eletrônico dos Estados Unidos, equivalente a US$ 385 bilhões (R$ 2 trilhões).
Jeff Blackman, diretor-gerente do Barbarian Group, uma agência de marketing que está apostando na IA, avalia que a mudança pode reduzir a necessidade de acesso direto aos sites.
“Cada vez mais, bastará clicar em ‘comprar’ na interface de conversa com a IA —você nunca chegará a acessar o site de uma marca”, disse Jeff Blackman, diretor-gerente do Barbarian Group, uma agência de marketing que está apostando na IA. “O risco de não estar preparado é simplesmente não aparecer.”
A RTA Store, varejista on-line de armários administrada por uma família, decidiu trabalhar sua presença diante dos sistemas de IA depois que integrantes da equipe perceberam que a empresa já não aparecia nas recomendações dos grandes modelos de linguagem.
“Se não nos concentrarmos em ‘Como fazer com que esses agentes leiam nossos produtos de forma fácil, rápida e segura?’, ficaremos para trás”, disse Ackerman.
A empresa pagou US$ 15 mil (R$ 78,4 mil) à New Generation, startup de São Francisco que atua na transformação de catálogos estáticos em dados estruturados e interfaces generativas.
Sites precisam facilitar a leitura das máquinas
A New Generation fez alterações no código do site da RTA Store e acrescentou um widget de IA para responder dúvidas sobre os produtos. Também ampliou o volume de informações disponíveis nas páginas, incluindo detalhes dos itens comercializados.
Caelean Barnes, cuja startup Gauge atua com empresas interessadas em melhorar a percepção de seus produtos pelos agentes de IA, afirma que esses sistemas têm necessidades diferentes das de usuários humanos.
“Os agentes “leem” mais do que os consumidores humanos e preferem “conteúdo muito factual, direto e repleto de estatísticas”, disse Caelean Barnes, cuja startup Gauge, fundada há dois anos, também se concentra em empresas que querem tornar seus produtos mais perceptíveis para agentes de IA.
“É preciso garantir que os fatos sobre sua empresa estejam prontamente disponíveis para os agentes em todas as diferentes plataformas nas quais eles possam procurar.”
A estrutura dos sites também passou a ser avaliada. Em parceria com a Visa, a New Generation atribui uma nota de 1 a 100 ao “grau de preparo para interagir com agentes” de uma página, simulando tentativas de navegação feitas por sistemas automatizados.
Jonathan Arena, CEO da New Generation, cita um possível problema durante uma contratação digital.
“Digamos que você seja um banco e que agentes estejam perguntando sobre as taxas de juros dos seus cartões de crédito”, disse Jonathan Arena, CEO da New Generation.
“Então um consumidor diz: ‘Quero solicitar seu cartão de crédito premium’, mas a operação fracassa porque o agente dele não conseguiu acessar o formulário de solicitação. Você acaba de perder um cliente.”
Estratégias ainda estão em avaliação
Parte das estratégias adotadas pelas startups envolve aspectos técnicos. A Limy, por exemplo, trabalha com a maneira como sistemas de IA representam a linguagem por meio de vetores.
Toby Coulthard, fundador da Jacquard, considera que algumas técnicas podem perder validade diante da velocidade de transformação dos modelos.
“Talvez essas recomendações sejam válidas pelos próximos dois meses, mas não depois disso. É preciso voltar aos princípios fundamentais do marketing.”
Para Akshat Trivedi, analista do setor na FTI Consulting, a transformação apresenta semelhanças com mudanças anteriores no comércio digital e na otimização para mecanismos de busca. A diferença está na velocidade com que as empresas tentam se antecipar ao novo ambiente.
“Em breve, talvez vejamos produtos lançados primeiro na IA ou marcas batizadas de modo que a IA as identifique mais do que outras, impulsionando sua capacidade de serem encontradas”, disse Trivedi.
A adaptação, portanto, envolve uma disputa por visibilidade em um ambiente no qual a inteligência artificial passa a participar da descoberta e da escolha de produtos. Para empresas, o desafio é garantir que dados, descrições e funcionalidades estejam acessíveis e possam ser interpretados pelos sistemas responsáveis por essas novas jornadas de compra.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/imagem-ia-premium/inteligencia-artificial-e-conceito-cientifico-robo-de-mao-segurando-carrinho-comercio-eletronico-compras-on-line_145997883.htm
