Um trabalho científico publicado na Nature Neuroscience reforça o papel da inflamação cerebral na progressão do Alzheimer e aponta novas possibilidades para o desenvolvimento de terapias mais eficazes. A pesquisa foi liderada por João Pedro Ferrari-Souza, estudante de Medicina e doutorando em Bioquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com colaboração de centros do Canadá e dos Estados Unidos.
O estudo se insere em um contexto de avanço da doença no mundo. Dados da Alzheimer’s Disease International indicam que um novo caso de demência surge a cada três segundos. Atualmente, mais de 55 milhões de pessoas vivem com algum tipo de demência, sendo o Alzheimer responsável por cerca de 70% dos diagnósticos. No Brasil, a projeção aponta que a doença e outras demências podem atingir 6,7 milhões de pessoas até 2050.
O Alzheimer é uma condição neurodegenerativa progressiva. Ele compromete funções cognitivas, como memória e linguagem, e reduz gradualmente a autonomia. A doença está associada à degeneração e morte de neurônios, além do acúmulo da proteína beta-amiloide no cérebro, considerada um dos principais marcadores biológicos do quadro.
Interação celular e avanço da doença
A pesquisa concentrou-se na comunicação entre micróglia e astrócitos, células fundamentais para a resposta imune do sistema nervoso central. A micróglia atua como célula de defesa, enquanto os astrócitos participam da manutenção do ambiente cerebral e também respondem a processos inflamatórios.
Os resultados indicam que o acúmulo de beta-amiloide, isoladamente, não é suficiente para impulsionar a progressão clínica do Alzheimer. De acordo com a análise, a proteína só está associada ao avanço da doença quando ocorre ativação microglial. Esse achado reforça a hipótese de que a neuroinflamação é um mecanismo central no desenvolvimento do quadro.
A constatação ajuda a explicar diferenças observadas na prática clínica. Alguns indivíduos acumulam beta-amiloide ao longo dos anos sem apresentar sintomas de demência. Outros evoluem de forma mais rápida para estágios avançados. O estudo sugere que o nível de ativação inflamatória no cérebro pode ser um dos fatores que determinam essas trajetórias distintas.
Metodologia e biomarcadores
Para chegar às conclusões, os pesquisadores utilizaram biomarcadores ultrassensíveis detectados no sangue e no líquor, exames de neuroimagem e avaliações clínicas. O estudo envolveu mais de 300 participantes, entre pessoas cognitivamente saudáveis e pacientes em diferentes fases da doença.
A combinação dessas ferramentas permitiu analisar a relação entre depósitos de beta-amiloide, ativação das células imunes cerebrais e desempenho cognitivo. A análise mostrou que a presença de inflamação associada à ativação da micróglia foi determinante para que o acúmulo proteico estivesse ligado à piora clínica.
Os dados apontam que o Alzheimer não segue um único caminho biológico. Em vez disso, envolve múltiplos processos que interagem, o que pode explicar a diversidade de apresentações clínicas observadas entre pacientes.
Implicações para futuras terapias
Os achados ampliam o debate sobre o foco das estratégias terapêuticas. Nos últimos anos, parte significativa das pesquisas concentrou-se na remoção de proteínas tóxicas do cérebro, especialmente a beta-amiloide. O estudo sugere que essa abordagem pode ser insuficiente se não considerar o controle da resposta inflamatória.
Segundo os autores, intervenções direcionadas à modulação da neuroinflamação podem potencializar tratamentos já disponíveis e contribuir para maior eficácia clínica. A proposta é atuar simultaneamente em diferentes mecanismos da doença, combinando estratégias que reduzam depósitos proteicos e regulem a ativação das células imunes.
A pesquisa também abre caminho para novos estudos com foco na população brasileira. O próximo passo será investigar se o padrão biológico identificado se repete no país, considerando possíveis influências genéticas e ambientais.
Com o crescimento projetado dos casos de demência nas próximas décadas, compreender os fatores que aceleram ou retardam a progressão do Alzheimer torna-se estratégico para a saúde pública. Ao evidenciar o papel central da inflamação cerebral, o estudo liderado na UFRGS contribui para redefinir prioridades na busca por tratamentos mais eficazes e adaptados à complexidade da doença.
Fonte: Portal Terra
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