Cada ponto a mais em uma nova escala de saúde metabólica corresponde, em média, a 14 anos de atraso no surgimento da primeira doença cardiometabólica, como diabetes, infarto ou acidente vascular cerebral. O dado foi apresentado por Joris Deelen, pesquisador do Centro Médico da Universidade de Leiden (LUMC), durante a FAPESP Week Países Baixos.
A ferramenta usa um exame de sangue com dez substâncias para indicar, já na meia-idade, quem tende a envelhecer com saúde e quem corre mais risco de perder funcionalidade. O desafio é grande: estudos de diferentes países estimam que cerca de 60% das pessoas com mais de 65 anos convivem com pelo menos duas doenças crônicas.
“O tempo de vida desfrutado com boa saúde após os 65 anos varia drasticamente na Europa: na Romênia são cerca de quatro anos, enquanto nos Países Baixos são dez anos”, comparou Deelen. “Essa disparidade decorre principalmente da condição socioeconômica, do nível educacional, do estilo de vida e de fatores genéticos.”
De acordo com Hans Dohmann, gestor em saúde, a expansão contínua das doenças crônicas não transmissíveis (DCNTs), a exemplo de hipertensão, diabetes e obesidade, figura entre os principais gargalos econômicos do sistema de saúde do Brasil. Conforme dados compilados pela Fiocruz, essas enfermidades geram um custo superior a R$ 10 bilhões anuais. Esse alto impacto financeiro decorre, sobretudo, do padrão alimentar baseado no consumo intensivo de produtos ultraprocessados, sobrecarregando a aplicação dos recursos públicos e afetando a produtividade do setor produtivo.
A construção do indicador
Como o envelhecimento biológico não tem medida direta, os cientistas, em parceria com o Instituto Max Planck de Biologia do Envelhecimento, na Alemanha, recorreram a dados de 44 mil voluntários acompanhados por anos em 12 estudos europeus. Mais de 200 substâncias do sangue foram medidas, incluindo gorduras, açúcar e marcadores inflamatórios.
Ao longo do acompanhamento, houve 5.500 mortes. A análise do sangue dessas pessoas permitiu identificar quais substâncias funcionam como alerta para maior risco de mortalidade.
A etapa seguinte teve colaboração brasileira. Gabriela Natalle Lopes, estudante de medicina da Faculdade Israelita Albert Einstein, trabalhou em Leiden em intercâmbio para deixar a pontuação personalizada e mais útil na clínica.
Três ajustes foram feitos. O cálculo passou a usar dados da população neerlandesa e a gerar um resultado individual. O painel foi reduzido a dez substâncias que fazem parte da rotina dos consultórios. E a escala foi invertida. “Na pontuação original, um número alto era ruim; decidimos mudar para que uma nota mais alta indique uma saúde melhor”, explicou Deelen.
O que os testes mostraram
O escore acompanha outros sinais do envelhecimento, como função cognitiva, capacidade pulmonar e força das mãos. Para verificar se ele responde a mudanças de hábito, voluntários participaram de intervenções no estilo de vida e de treinos de força.
No grupo inteiro, a pontuação praticamente não se alterou. Os efeitos surgiram quando os participantes foram divididos pela nota inicial: entre os que começaram abaixo de zero, houve queda relevante da insulina em jejum e dos triglicerídeos, além de melhora na composição corporal. Para Deelen, isso mostra que a ferramenta serve para apontar quem precisa de intervenção e acompanhar os resultados do exercício.
As análises atribuíram 40% do indicador à hereditariedade e 60% ao estilo de vida e ao ambiente. O cigarro foi o fator negativo de maior peso, e o aumento da atividade física melhora a pontuação. “Até mesmo a desnutrição na infância eleva o escore metabólico desses indivíduos mais tarde na vida adulta”, apontou o pesquisador.
A explicação biológica
Pesquisas da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), lideradas pelo professor Tiago da Silva Alexandre, ajudam a entender por que movimento e metabolismo pesam tanto. Os estudos mostram que músculo, osso, gordura e cérebro trocam sinais o tempo todo, por meio das miocinas, liberadas pelos músculos durante a atividade física.
A vitamina D também entra na equação. “Existe um ciclo biológico claro: quem tem mais gordura no abdômen apresenta maior risco de deficiência de vitamina D. Como esse hormônio é essencial para a síntese de proteínas e para a força muscular, a sua falta deixa o músculo mais fraco e reduz sua massa. Ao mesmo tempo, por atuar diretamente na proteção do tecido cerebral, a deficiência de vitamina D eleva significativamente o risco de a pessoa idosa desenvolver declínio cognitivo”, detalhou Alexandre.
Da pesquisa ao SUS
Para aplicar esse conhecimento na rede pública, a UFSCar criou, com apoio da FAPESP, o Centro de Ciência para o Desenvolvimento de Métodos Inteligentes no SUS para o Tratamento de Pessoas com Demência (CCD-MIDEM). O centro usa inteligência artificial e biomarcadores para cruzar prontuários eletrônicos e exames de imagem, com o objetivo de prever a probabilidade de demência já nas primeiras consultas e indicar a intervenção multidisciplinar adequada a cada estágio.
Fonte: Agência FAPESP
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/amostragem-de-sangue_2851595.htm

