Uma pesquisa realizada em Fernando de Noronha tem ajudado cientistas a entender melhor como acontece a reprodução dos tubarões e por que os machos possuem dois órgãos sexuais. O estudo é conduzido por pesquisadores da Universidade Federal Rural de Pernambuco dentro das atividades do projeto Ecotuba, que monitora espécies marinhas no arquipélago há 12 anos.
Os pesquisadores analisam o funcionamento dos cláspers, órgãos reprodutores dos tubarões machos usados durante o acasalamento. As estruturas ficam próximas às nadadeiras pélvicas e permanecem rígidas ao longo da fase adulta dos animais.
Segundo os especialistas, a presença de dois órgãos sexuais aumenta as possibilidades de fecundação durante a cópula. Isso ocorre porque o processo reprodutivo dos tubarões costuma ser marcado por movimentos intensos e pela tentativa de fuga das fêmeas.
A pesquisadora Mariana Rêgo, especialista em reprodução de tubarões e raias, explicou que o comportamento dos animais influencia diretamente a necessidade de dois cláspers.
“No ato sexual, o macho morde e segura a fêmea enquanto utiliza um clásper. Às vezes, a fêmea consegue escapar e o sêmen é desperdiçado. Então, o tubarão volta a morder e usa o outro clásper para garantir a fecundação”, explicou.
Mariana Rêgo estuda reprodução de tubarões há 26 anos e participa das atividades de captura e análise dos animais em Fernando de Noronha.
Gestação pode ter filhotes de pais diferentes
Os estudos também apontam que as fêmeas podem copular com vários machos durante o mesmo período reprodutivo. Como consequência, uma única gestação pode reunir filhotes gerados por pais diferentes.
Esse comportamento é considerado comum em algumas espécies e faz parte das investigações conduzidas pelos pesquisadores da UFRPE.
“Muitas vezes, os filhotes têm pais diferentes porque a fêmea copula com vários machos. Em uma mesma gestação, pode haver filhotes de mais de um pai”, afirmou a pesquisadora.
A equipe tenta compreender como essa diversidade genética interfere na sobrevivência das espécies e no equilíbrio populacional dos tubarões encontrados no arquipélago.
Além da observação comportamental, o estudo inclui coleta de material biológico para avaliar a saúde reprodutiva dos animais. O procedimento é realizado durante capturas monitoradas pelos pesquisadores.
Pesquisa analisa sêmen dos tubarões
Uma das etapas do trabalho consiste na coleta de sêmen dos tubarões machos. O material é retirado com o auxílio de instrumentos específicos e depois encaminhado para análise.
“Nós usamos uma seringa e uma sonda para retirar o sêmen. Durante a captura, o macho fica agitado e, muitas vezes, conseguimos fazer a coleta apenas manipulando o clásper”, contou Mariana Rêgo.
As análises laboratoriais permitem identificar a qualidade dos espermatozoides e verificar quais apresentam maiores chances de fecundação. O estudo também busca detectar sinais de contaminação ambiental nos animais.
“Nós analisamos a qualidade do sêmen e quais espermatozoides têm mais chances de reprodução. Também investigamos a presença de microplásticos nos animais para avaliar a saúde dos oceanos”, explicou Mariana Rêgo.
A presença de microplásticos nos organismos marinhos é acompanhada por pesquisadores em diferentes regiões do mundo. Em Fernando de Noronha, o monitoramento ajuda a medir possíveis impactos da poluição sobre a fauna marinha.
Clásper pode atingir até 50 centímetros
Os pesquisadores também avaliam o tamanho dos órgãos reprodutores dos tubarões. Em animais adultos com aproximadamente cinco metros de comprimento, os cláspers podem chegar a cerca de 50 centímetros.
Apesar disso, os cientistas destacam que o tamanho da estrutura não garante o sucesso da fecundação. Depois do acasalamento, o espermatozoide ainda precisa percorrer parte do sistema reprodutivo da fêmea até encontrar o óvulo.
“O clásper alcança apenas parte do útero da fêmea. Depois disso, o espermatozoide ainda precisa percorrer uma longa distância até encontrar o óvulo”, explicou Mariana Rêgo.
A pesquisa sobre reprodução dos tubarões é realizada em Fernando de Noronha há cerca de dois anos. Durante esse período, os materiais coletados continuam sendo analisados pela equipe do projeto Ecotuba.
Os pesquisadores esperam que os dados obtidos contribuam para ampliar o conhecimento sobre os hábitos reprodutivos dos tubarões e auxiliem em estratégias de preservação das espécies e dos oceanos brasileiros.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/mandibulas-de-tubarao-cinza-prontas-para-atacar-no-azul_58842552.htm

