A pesquisa científica brasileira ganhou destaque internacional com o trabalho da pernambucana Maria Clara Müller. Doutora em química pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a pesquisadora venceu um concurso de imagens científicas produzidas por microscopia durante o Congresso Internacional de Microscopia, realizado em Liverpool, na Inglaterra.
A imagem premiada registra bactérias relacionadas à cárie dentária e foi produzida durante o doutorado da cientista. O trabalho integra uma pesquisa desenvolvida na UFPE para compreender uma tecnologia voltada ao tratamento da cárie sem o uso de broca.
O anúncio da vitória ocorreu no domingo (30), durante a Assembleia de Jovens Cientistas, programação paralela ao congresso. O prêmio foi entregue por Richard Henderson, vencedor do Nobel de Química de 2017 e pesquisador ligado ao desenvolvimento de técnicas que possibilitaram visualizar estruturas de biomoléculas, como o vírus da zika.
O reconhecimento também terá espaço em uma publicação científica. A imagem de Maria Clara foi escolhida para estampar a capa da Journal of Microscopy.
Microscopia ajuda a investigar a cárie
A fotografia foi produzida durante os estudos realizados pela pesquisadora no doutorado. Para desenvolver o trabalho, ela utilizou o microscópio eletrônico disponível no Laboratório do Departamento de Química Fundamental da UFPE.
O objetivo da pesquisa era compreender como funciona a tecnologia desenvolvida pelo grupo de pesquisa da universidade para tratar a cárie sem recorrer à broca. A microscopia avançada foi uma das ferramentas utilizadas para observar a interação das bactérias com estruturas presentes nos dentes.
“Meu grupo de pesquisa da UFPE desenvolveu uma tecnologia para tratar a cárie sem broca, e o meu trabalho de doutorado se concentrou em descobrir como essa tecnologia funciona. Para isso, usei muitas técnicas avançadas de microscopia. A imagem vencedora do concurso mostra as bactérias causadoras da cárie penetrando em pequenos canais que temos no nosso dente, que ficam expostos quando o dente está cariado”, detalhou.
A conquista ocorreu de maneira inesperada para Maria Clara. Antes do anúncio, ela estava pensando em pedir uma fotografia ao vencedor do Nobel de Química. O resultado do concurso acabou proporcionando o encontro.
“O evento já estava chegando ao fim. Estava me perguntando se teria coragem de me aproximar do Richard Henderson para pedir uma foto, porque estava com um pouco de vergonha. Foi justamente nesse momento que anunciaram que a minha imagem tinha vencido. Fui até a frente e tive essa oportunidade de tirar uma foto sem precisar pedir, e ele ainda me pediu para explicar a imagem. Foi um momento rápido, mas inesquecível, que vai ficar para sempre na minha memória”, disse.
Ciência aplicada a problemas do cotidiano
A Assembleia de Jovens Cientistas é promovida a cada quatro anos pela Federação Internacional de Sociedades de Microscopia (IFSM). O evento reúne pesquisadores em início de carreira de diferentes países, escolhidos a partir de suas realizações científicas e da qualidade dos trabalhos apresentados no congresso.
Para Maria Clara, a experiência também reforça como pesquisas desenvolvidas com técnicas altamente especializadas podem ter relação direta com situações comuns da população.
“Às vezes, o trabalho dos cientistas parece muito distante. Por exemplo, esse é um congresso só sobre microscopia e reúne cientistas de áreas diversas que usam técnicas avançadas de microscopia sobre temas que muitas vezes as pessoas não têm ideia do que esses cientistas estão estudando. Mas essas pesquisas estão presentes na nossa realidade, como é o meu caso. Estou usando essas técnicas de ponta para um problema no dia dia, que é a cárie dentária”, conta.
A formação da pesquisadora inclui graduação em Engenharia Química, além de mestrado e doutorado pela UFPE. Agora, ela dará continuidade à investigação durante uma etapa do pós-doutorado na França, prevista para começar no próximo mês.
Próxima etapa da investigação
Na França, Maria Clara continuará utilizando técnicas avançadas de microscopia, desta vez com um equipamento capaz de observar uma única célula bacteriana viva em meio líquido e com alta resolução.
“Vou continuar usando técnicas de microscopia avançada. Dessa vez, vou usar um microscópio que é capaz de enxergar com altíssima resolução uma única célula de uma bactéria enquanto ela está viva, imersa em meio líquido. E eu consigo ver como essa bactéria responde ao longo do tempo a um tratamento que eu estou aplicando. E eu uso nos meus estudos essa bactéria, que é a causadora da cárie, e o tratamento que eu aplico nela é essa tecnologia que foi desenvolvida pelo meu grupo de pesquisa em Pernambuco”, detalhou.
Fonte: G1
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/mao-segurando-o-trofeu-dourado-no-fundo_35161371.htm
