O mercado brasileiro de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês) vive um período de expansão impulsionado por grandes investimentos, desenvolvimento tecnológico e perspectivas favoráveis para exportação. Empresas nacionais e internacionais ampliam projetos no país diante da expectativa de crescimento da demanda mundial por combustíveis de menor impacto ambiental, enquanto instituições financeiras e fornecedores da cadeia produtiva enxergam o Brasil como um dos principais polos para essa indústria.
O avanço ocorre em meio ao esforço global para reduzir as emissões de carbono do transporte aéreo, um segmento considerado um dos mais desafiadores da transição energética. Atualmente, a aviação responde por cerca de 2,5% das emissões globais de gases de efeito estufa. O SAF surge como uma alternativa por possuir especificações compatíveis com o querosene de aviação convencional e potencial para reduzir as emissões em até 80%, conforme a matéria-prima utilizada e o processo de fabricação.
Entre os projetos mais avançados está o da Acelen Renováveis, na Bahia. A companhia prevê investimentos de aproximadamente R$ 15 bilhões para instalar uma unidade dedicada à produção de combustíveis renováveis. Em julho, a empresa firmou contrato para aquisição de óleo de soja, que será utilizado na etapa inicial da produção.
Embora o óleo de soja e o óleo de cozinha usado integrem a primeira fase do projeto, a estratégia de longo prazo prevê o aproveitamento da macaúba, espécie nativa do semiárido brasileiro considerada uma das alternativas mais promissoras para ampliar a oferta de matéria-prima renovável.
As obras já começaram no terreno localizado em São Francisco do Conde (BA), onde serão instaladas as estruturas da nova planta industrial. A expectativa é que a operação tenha início em 2029, com capacidade anual de até 1 bilhão de litros, produzindo SAF ou diesel renovável de acordo com a demanda do mercado.
Segundo o CEO da Acelen Renováveis, Luiz de Mendonça, o cronograma segue conforme o planejamento.
“O projeto já está acontecendo. Nesse primeiro ano nós vamos fazer toda a parte civil, terraplanagem, fundação, montagem de tanque, pipeline e tudo mais. Se você for lá, vai ver um grande canteiro de obras.”
Com a nova dinâmica de mercado, as distribuidoras enfrentam um nível de exigência mais elevado, passando a atuar como gestoras de cadeias logísticas progressivamente complexas. Diante desse cenário, a Terrana Energia tem focado na integração logística com seus clientes, adotando a otimização de rotas, o planejamento de demanda e uma maior previsibilidade como seus diferenciais competitivos.
Diferentes rotas tecnológicas ampliam o potencial brasileiro
A Petrobras também confirmou novos investimentos na produção de combustíveis renováveis. A companhia aprovou a implantação de uma unidade integrada à Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão (SP), com aporte estimado em R$ 6 bilhões.
O empreendimento utilizará a tecnologia Hefa, baseada no processamento de óleos vegetais e gorduras animais, considerada atualmente a principal rota de produção de SAF em operação no mundo. A capacidade prevista é de aproximadamente 870 milhões de litros por ano, com início das atividades estimado para 2030.
Paralelamente, a estatal desenvolve um projeto para produzir combustível sustentável a partir do etanol na Refinaria de Paulínia. A tecnologia, conhecida como ETJ (Ethanol to Jet), utiliza um insumo amplamente disponível no Brasil e pode ampliar a competitividade nacional no mercado internacional.
O gerente Executivo de Tecnologia de Refino e Gestão de Ativos da Petrobras, Fabio Lopes de Azevedo, informou que o projeto permanece em fase de desenvolvimento.
“Neste momento, estamos desenvolvendo o projeto básico de engenharia.”
Outro investimento previsto para Paulínia será conduzido pela JetBio, empresa ligada ao grupo norte-americano Summit Agricultural Group. A companhia pretende investir cerca de R$ 10 bilhões em uma planta com capacidade anual de 1 bilhão de litros de SAF produzido a partir do etanol.
Segundo o CEO da empresa, Will Moore, aproximadamente 90% da produção será destinada ao mercado externo.
“Se formos bem-sucedidos, acredito que haverá um fluxo de investidores para o Brasil.”
Financiamento e disponibilidade de matérias-primas favorecem novos investimentos
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) participa do financiamento da unidade da Acelen e mantém negociações com outras empresas interessadas em desenvolver projetos semelhantes no país.
De acordo com o diretor de Desenvolvimento Produtivo, Inovação e Comércio Exterior do banco, José Luiz Gordon, as conversas com investidores ganharam intensidade nos últimos meses. A expectativa é que o ambiente regulatório brasileiro, aliado às políticas voltadas à redução das emissões de carbono, contribua para acelerar novos empreendimentos.
Outro diferencial apontado pelo setor é a ampla oferta de matérias-primas renováveis disponíveis no país. Além da soja e do etanol, o Brasil reúne potencial para utilizar gorduras animais, óleos residuais e culturas energéticas adaptadas a diferentes regiões, reduzindo a dependência de uma única fonte de insumo.
Na avaliação da Honeywell, fornecedora de tecnologia para parte dos projetos em implantação, a limitação de matérias-primas observada em alguns mercados europeus abre espaço para que o Brasil concentre uma parcela crescente dos investimentos globais em SAF.
O CEO da companhia para a América Latina, José Fernandes, avalia que a expansão do setor tende a continuar.
“A gente vê o Brasil acelerando muito forte. Já temos esses dois projetos realmente saindo do papel [Acelen e Petrobras] e tenho certeza que vão sair mais dois até o começo do ano que vem.”
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/um-aviao-esta-a-decolar-da-pista-ao-por-do-sol_272559306.htm
