O iFood entrou na Justiça de São Paulo contra a Keeta, braço internacional da chinesa Meituan, acusando a concorrente de práticas de concorrência desleal e tentativa de obtenção de informações confidenciais. A ação foi protocolada nesta terça-feira (19) na 1ª Vara Empresarial e de Conflitos Relacionados à Arbitragem da Capital.
A empresa brasileira pede indenização de R$ 1 milhão e solicita o reconhecimento de que a Keeta e a Meituan teriam cometido infrações previstas no artigo 195 da Lei de Propriedade Industrial (LPI), que trata de concorrência desleal. O iFood também quer que a Justiça determine a interrupção de abordagens a seus funcionários, sob pena de multa diária de R$ 100 mil.
Em nota, a Keeta negou qualquer irregularidade. A companhia afirmou que “opera em conformidade com todos os requisitos locais” e disse que existe investigação em andamento favorável à empresa. Segundo a plataforma, “a empresa reforça que não aborda indivíduos para os fins descritos e destaca, ainda, que não recebeu qualquer notificação”.
A disputa amplia a tensão no setor de delivery no Brasil, especialmente após a entrada de novos concorrentes no mercado a partir de 2025. Além da disputa por restaurantes parceiros e consumidores, o segmento passou a enfrentar acusações relacionadas à obtenção de dados estratégicos e pressão sobre funcionários de empresas rivais.
Investigação envolve ex-funcionários e reuniões pagas
De acordo com o processo obtido pela Folha de S.Paulo, a ação do iFood é resultado de uma investigação iniciada no ano passado. O caso envolve ex-funcionários da empresa que teriam participado de reuniões virtuais remuneradas com consultorias ligadas ao mercado chinês.
Um dos ex-colaboradores, que trabalhou por três anos na companhia até abril de 2025, admitiu ter compartilhado informações consideradas sigilosas. Entre os temas discutidos nas reuniões estavam volume de vendas por cidade, taxas cobradas de restaurantes e detalhes do iFood Pago, ferramenta financeira da plataforma.
Segundo os documentos, ele recebeu R$ 5.500 pelos encontros, parte do valor em dólar.
O iFood afirma ter conseguido, por decisão da Justiça dos Estados Unidos, acesso a informações do Zoom sobre os participantes das reuniões. Entre os e-mails identificados estavam sete contas com o domínio “@meituan.com”.
O rastreamento dos IPs mostrou acessos realizados em São Paulo e Barueri, na região metropolitana, além de conexões originadas da China e de outros países.
A empresa afirma que sua investigação durou cerca de um ano e identificou abordagens a pelo menos 240 colaboradores por aproximadamente 30 consultorias, em sua maioria internacionais. As ofertas envolviam conversas remuneradas, com pagamentos entre US$ 400 e US$ 500 por hora, o equivalente hoje a cerca de R$ 2,2 mil e R$ 2,5 mil.
Guerra do delivery cresce no Brasil
Fundado em 2011, em Jundiaí, interior paulista, o iFood é atualmente a principal plataforma de delivery da América Latina. A empresa informa ter mais de 65 milhões de clientes, cerca de 500 mil estabelecimentos cadastrados e centenas de milhares de entregadores parceiros. O volume movimentado chega a aproximadamente R$ 8 bilhões por mês.
Já a Keeta iniciou operações no Brasil em outubro de 2025, anunciando investimentos de R$ 5,6 bilhões no país. A plataforma pertence à Meituan, considerada líder global no setor em número de pedidos e usuários, com atendimento anual a cerca de 770 milhões de pessoas e média de 80 milhões de entregas por dia.
Além da China, a Meituan já atua em mercados como Hong Kong, Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Emirados Árabes Unidos.
A disputa entre empresas de delivery também se estende ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). Em março, a Keeta afirmou que contratos de exclusividade firmados por concorrentes, incluindo o iFood, dificultavam sua expansão no Rio de Janeiro e contribuíram para o adiamento de operações na cidade.
O iFood também moveu ações anteriormente contra ex-executivos que passaram a trabalhar na 99Food, plataforma que retomou atividades no Brasil no ano passado. A suspeita era de utilização de informações estratégicas em negociações comerciais com restaurantes.
Especialistas explicam limites da concorrência
Advogados especializados em direito empresarial afirmam que o Brasil não possui uma legislação específica sobre espionagem corporativa, mas casos do tipo podem ser enquadrados como concorrência desleal com base na Lei de Propriedade Industrial.
Maria Cibele Santos, especialista em direito concorrencial no Costa Tavares Paes Advogados, afirma que tanto funcionários quanto empresas podem sofrer punições, desde que haja comprovação das irregularidades.
“Tem de ter a prova de que o empregado agiu em desconformidade à sua obrigação”, diz ela.
Segundo a advogada, a CLT prevê punições como demissão por justa causa para empregados envolvidos em vazamento de dados estratégicos. Ela também recomenda contratos claros de confidencialidade e proteção de informações internas.
Marcelo Aith, advogado criminalista do escritório Marcelo Aith Sociedade de Advogados, afirma que a livre concorrência é garantida pela legislação brasileira, mas possui limites definidos pela lei.
“É um fundamento do sistema capitalista e da ordem econômica brasileira a busca de mercado e as pesquisas. Tudo está dentro das normas do jogo, desde que não se ultrapasse o que diz a lei”, afirma.
Marcelo Alcides Carvalho Gomes, sócio da Dfexa Consultoria, destacou que pesquisas de mercado envolvendo profissionais do setor são práticas comuns. Segundo ele, o problema está na forma como as informações são obtidas.
No processo, o próprio iFood reconhece que entrevistar funcionários de empresas concorrentes não é ilegal. A discussão judicial gira em torno da remuneração oferecida para obtenção de informações consideradas estratégicas e confidenciais.
Fonte: Folha de São Paulo
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-gratis/um-entregador-de-comida-com-caixas-de-comida_15038263.htm

