A sequência de pedidos de recuperação judicial envolvendo empresas conhecidas do público brasileiro colocou o endividamento corporativo novamente no centro do debate econômico. Casas Bahia, Habib’s, Tok&Stok e Marabraz atravessam processos de reestruturação em 2026, cada uma com problemas específicos, mas submetidas a um ambiente financeiro semelhante.
Os juros elevados aparecem entre os principais fatores apontados pelas companhias. A Selic chegou a 15% ao ano e permanece em nível restritivo. Com isso, empréstimos ficam mais caros, o custo da dívida aumenta e o acesso a novas linhas de crédito se torna mais difícil.
O movimento ocorre enquanto a inadimplência empresarial também alcança níveis elevados. Dados da Serasa Experian mostram que mais de 9,1 milhões de empresas estavam inadimplentes em junho de 2026, recorde da série histórica.
A recuperação judicial, nesse cenário, funciona como mecanismo para reorganizar passivos e buscar condições para manter as operações. Os casos recentes, entretanto, mostram que os problemas financeiros não têm uma única origem.
Segundo o economista Ricardo Knoepfelmacher, o principal obstáculo para a recuperação de qualquer empresa reside no seu nível de alavancagem e no consequente grau de risco assumido. Ele ressalta que as organizações no Brasil costumam operar com expectativas de negócios desalinhadas da real dinâmica do mercado, embora defenda que todo negócio é passível de reestruturação.
Casas Bahia acumula dívida de R$ 17,3 bilhões
A situação da Casas Bahia é uma das maiores em escala. A companhia protocolou pedido de recuperação judicial em agosto, com passivo informado de R$ 17,3 bilhões.
Entre os fatores citados estão o ambiente de juros elevados, a restrição de crédito, o aumento das despesas financeiras e a pressão sobre o consumo e o capital de giro. O pedido ocorreu depois de a empresa registrar forte prejuízo no segundo trimestre de 2026.
A varejista já havia passado por uma recuperação extrajudicial em 2024, quando buscou renegociar aproximadamente R$ 4,1 bilhões em dívidas. A nova solicitação mostra que a reestruturação anterior não foi suficiente para resolver a pressão financeira.
O caso também evidencia uma dificuldade recorrente no varejo de bens duráveis. Produtos de maior valor dependem, em muitos casos, de crédito ao consumidor. Quando os juros sobem e as famílias reduzem o consumo financiado, as empresas enfrentam pressão simultaneamente sobre vendas e fluxo de caixa.
Habib’s enfrenta mudanças no modelo de consumo
O Grupo Gennius, controlador do Habib’s, entrou com pedido de recuperação judicial com dívida declarada de R$ 265,2 milhões. A Justiça de São Paulo acolheu o pedido e nomeou a KPMG como administradora judicial.
A companhia relaciona a crise aos efeitos da pandemia, à mudança no comportamento dos consumidores e ao aumento dos juros. Antes da recuperação, o grupo havia ampliado sua presença em shoppings e centros urbanos, mas a circulação de consumidores mudou após a crise sanitária.
O avanço do trabalho remoto e híbrido reduziu o movimento em algumas regiões. Ao mesmo tempo, plataformas de delivery e marketplaces alteraram a relação entre consumidores e restaurantes.
A empresa também apontou o cenário macroeconômico como elemento relevante. A elevação da Selic aumentou o custo de financiamento justamente em um período de transformação do setor.
Tok&Stok e Marabraz enfrentam problemas diferentes
O Grupo Toky, proprietário da Tok&Stok e Mobly, também recorreu à recuperação judicial em 2026. A companhia enfrenta dívidas superiores a R$ 1 bilhão e prejuízo líquido de R$ 232,7 milhões no segundo trimestre.
O setor de móveis e decoração foi afetado pela redução do poder de compra das famílias, pelo custo do crédito e pela concorrência do comércio eletrônico. A recuperação busca preservar as operações e reorganizar o passivo.
Já a Marabraz apresentou pedido envolvendo aproximadamente R$ 140 milhões em dívidas. O caso possui características próprias, pois a empresa também enfrenta disputas societárias e familiares.
Segundo informações do processo, mudanças na estrutura patrimonial afetaram garantias utilizadas historicamente para obtenção de crédito. A dificuldade para manter essas garantias prejudicou a renovação de linhas existentes e a contratação de novas operações.
O problema ultrapassa as grandes marcas
Os casos mostram que juros altos podem acelerar dificuldades quando empresas já carregam dívidas elevadas ou enfrentam problemas estruturais. Porém, o cenário não significa que todo o varejo esteja em crise.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou recentemente que não há uma crise generalizada no setor e destacou o crescimento das vendas do varejo entre junho e julho de 2026.
Ainda assim, os pedidos de recuperação judicial revelam a pressão sobre empresas que dependem de crédito, capital de giro e consumo financiado. Para fornecedores, instituições financeiras e demais credores, esses processos exigem atenção à estrutura das dívidas, às garantias e aos planos de reestruturação.
A onda atual, portanto, não pode ser explicada apenas pela taxa de juros. Endividamento acumulado, mudanças no comportamento do consumidor, transformação digital, redução de margens e problemas específicos de gestão aparecem combinados nos diferentes casos.
O resultado é um ambiente em que marcas tradicionais precisam reorganizar suas estruturas financeiras para continuar operando. A recuperação judicial representa uma tentativa de ganhar tempo e negociar os passivos, mas a continuidade dos negócios dependerá da capacidade de cada grupo de ajustar custos, preservar caixa e recuperar equilíbrio financeiro.
Fonte: CNN Brasil
Foto: https://www.magnific.com/br/fotos-premium/diretor-com-oculos-e-contrato_258961690.htm

