O retorno ao mercado de trabalho formal depois de uma passagem pelo empreendedorismo ou por atividades autônomas tem se tornado cada vez mais frequente no Brasil. O movimento acompanha a própria dinâmica do ambiente de negócios no país. Dados amplamente divulgados mostram que cerca de 20% das empresas encerram as atividades ainda no primeiro ano e aproximadamente 60% não ultrapassam cinco anos de operação.
Nesse contexto, muitos profissionais optam por retomar a busca por vagas no regime CLT. Levantamentos divulgados no fim de 2025 indicam que 56% das pessoas que atuam como autônomas e já tiveram vínculo formal afirmam que aceitariam voltar ao modelo tradicional de contratação. A decisão costuma estar ligada à busca por maior previsibilidade de renda, benefícios trabalhistas e estabilidade no médio prazo.
Boa parte dessas trajetórias teve início com o estímulo de conteúdos digitais que associam empreendedorismo, investimentos e trabalho independente à promessa de autonomia financeira. Na prática, porém, o caminho envolve riscos elevados, jornadas extensas e períodos de instabilidade. Com o tempo, muitos profissionais reavaliam expectativas e passam a considerar o retorno ao mercado formal.
O principal desafio surge no momento de apresentar esse período fora da CLT de forma clara e profissional. Ainda é comum a percepção de que a experiência como empreendedor precisa ser explicada ou justificada, quando, na avaliação de especialistas, ela deve ser tratada como atuação legítima no mercado de trabalho.
Segundo Tetê Baggio, CEO e fundadora da Be Back Now, o ponto central está na construção da narrativa profissional. Para ela, um erro recorrente é encarar o intervalo fora do regime formal como um vazio ou uma fase improdutiva, o que não corresponde à realidade da maioria dos casos.
Atuação autônoma deve ser apresentada como experiência concreta
De acordo com Tetê, muitos ex-empreendedores demonstram insegurança ao relatar essa etapa em processos seletivos. O receio de serem interpretados como profissionais que falharam ainda existe, apesar de o mercado já lidar melhor com percursos não lineares.
A orientação é enquadrar o período como experiência profissional estruturada. Termos como atuação autônoma, consultoria independente ou gestão de projetos próprios ajudam a traduzir a vivência para a linguagem corporativa, facilitando a compreensão por parte dos recrutadores.
O currículo, nesse cenário, deve ser tratado como um instrumento estratégico. Ele não é espaço para explicações emocionais ou justificativas pessoais. O foco deve estar nas responsabilidades assumidas, nas decisões tomadas e nas competências desenvolvidas ao longo do período fora da CLT.
Como estruturar o currículo após empreender
Para profissionais que tiveram um negócio próprio, a recomendação é descrever as atividades de maneira objetiva e funcional. Gestão financeira, negociação com fornecedores, planejamento estratégico, organização de processos, definição de metas e tomada de decisão são exemplos de competências facilmente transferíveis para o ambiente corporativo.
Mesmo quando a empresa foi encerrada, houve aprendizado relevante. O encerramento do negócio não invalida a experiência acumulada. O que interessa ao recrutador é entender quais habilidades foram desenvolvidas e como elas podem ser aplicadas à função em questão.
No caso de quem tentou atuar exclusivamente como investidor, a lógica segue a mesma linha. Em vez de destacar ganhos ou perdas, o ideal é apresentar o método de trabalho, o acompanhamento de indicadores, a disciplina na gestão de recursos e a capacidade analítica construída ao longo do tempo.
Entrevista pede objetividade e leitura do próprio percurso
Durante a entrevista, Tetê recomenda uma abordagem direta e consistente. O recrutador busca compreender de que forma a experiência fora da CLT contribuiu para a maturidade profissional do candidato e quais aprendizados podem ser levados para o novo cargo.
Assumir a trajetória com clareza tende a gerar mais confiança do que tentar minimizar ou ocultar o período como autônomo. O retorno ao mercado formal pode ser apresentado como uma escolha consciente de reposicionamento, alinhada a objetivos profissionais mais definidos.
Segundo a especialista, candidatos que demonstram capacidade de aprendizado, adaptação e leitura crítica da própria trajetória costumam ser melhor avaliados nos processos seletivos.
Condutas que dificultam a recolocação
Algumas posturas podem comprometer o retorno ao mercado formal. Criticar o ambiente corporativo, demonstrar frustração constante ou tentar esconder a experiência como empreendedor geralmente gera desconfiança por parte dos recrutadores.
Para Tetê, a combinação entre transparência e uma narrativa bem organizada é a estratégia mais eficaz. A experiência fora da CLT envolve riscos reais, decisões complexas e ausência de roteiros prontos, fatores que, quando bem apresentados, podem se transformar em diferencial competitivo.
Quando comunicada com objetividade e alinhamento às demandas do mercado, a vivência como empreendedor deixa de ser um obstáculo e passa a fortalecer o perfil profissional de quem busca uma nova oportunidade no regime formal.
Fonte: Carta Capital
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