A presença de professores negros em sala de aula não é apenas simbólica. Ela produz efeitos mensuráveis na vida escolar e no futuro profissional de estudantes negros. É o que mostra um estudo recente que analisou dados educacionais e de mercado de trabalho ao longo de mais de uma década, revelando que a composição racial do corpo docente influencia desde a conclusão do ensino médio até a renda na vida adulta.
O advogado e sociólogo José Vicente, hoje com 76 anos e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, descreve a sensação de segurança que sentia quando via um professor negro durante sua formação. “Uma presença negra na sala de aula é encorajadora para um aluno negro. Dá mais segurança e estímulo. Fortalece o desejo e a disposição para estudar”, afirma. Já como docente, ele percebeu o impacto inverso. “Eu me vi como uma peça importante na recepção desses alunos, que se sentiam representados e participantes. E o pertencimento e o acolhimento são potentes demais.”
No Brasil, pessoas negras têm 53% menos chance de concluir o ensino superior e recebem, em média, 41% menos que pessoas brancas. O estudo, conduzido pelo economista Pedro Lopes, doutorando da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas, quantificou como a presença de professores negros pode reduzir essas distâncias.
Dados, método e resultados
A pesquisa analisou múltiplas bases de dados vinculadas, como Censo Escolar, Saeb e Enem, acompanhando dois grupos de aproximadamente um milhão de estudantes cada, entre 2012 e 2023. O percurso observado foi longo, da educação básica ao ingresso no mercado de trabalho. A comparação foi feita dentro das próprias escolas, entre alunos semelhantes expostos a diferentes proporções de professores negros.
Os resultados indicam que elevar a presença de docentes negros de 0% para 50% aumenta em 1,9% a chance de conclusão do ensino médio, em 3,9% o ingresso no ensino superior e em 5,2% a conclusão da graduação aos 25 anos. Há também um ganho médio de 2,3% nos rendimentos do trabalho. O desempenho de alunos brancos não sofre impacto negativo.
Segundo Lopes, esses percentuais representam uma redução expressiva da desigualdade racial, de 30% no nível educacional e de 60% na renda. “Os resultados ilustram que os professores negros já têm importância na redução das desigualdades e que há potencial quando a composição racial do corpo docente é similar à da população.”
O efeito é mais intenso entre alunos que tiveram pior desempenho no início da trajetória escolar, grupo que costuma enfrentar maior risco de evasão. O estudo também identificou melhora em disciplinas como matemática, mesmo quando o professor negro não lecionava essa matéria, o que sugere um impacto mais amplo sobre engajamento e expectativas.
Dados do Censo Escolar de 2024 reforçam o descompasso: 56,8% dos alunos com raça declarada se identificam como negros, enquanto entre professores o percentual é de 44,4%. Para o pesquisador, a presença de docentes negros “atualiza a crença dos estudantes negros sobre educação”, estimulando maior esforço e retornos futuros. “Professores podem dar mais atenção, suporte e mentoria para alunos que compartilham da sua raça.”
A psicóloga social Cida Bento lembra que estudos anteriores mostram expectativas mais baixas de professores brancos em relação a alunos negros. “Isso significa que investem menos nesses alunos.” Para ela, a interação entre professores e alunos negros cria um ambiente distinto. O professor inspira o estudante a “ver outro futuro para ele”, fortalecendo autoestima, pertencimento e confiança.
O economista Michael França avalia que o estudo “aponta mais um caminho para diminuir as lacunas raciais em termos de aprendizagem no Brasil”. Ele destaca o papel das vivências do professor negro. “Esse conhecimento tácito ele não tem”, diz, ao comparar com docentes de outros contextos sociais. “O professor negro pode trazer mais esse conhecimento para dentro da sala de aula.”
Experiências pessoais reforçam os dados. Daniel Teixeira, diretor-executivo do Ceert, relata episódios de racismo ignorados por professores durante sua infância. “Quando há um professor negro, ele em geral vai perceber essas situações de outra forma.” Para ele, a identificação amplia as possibilidades percebidas pelo aluno. “Se a educação reproduz o racismo, ela não só deseduca como desumaniza.”
Lopes afirma que políticas de cotas ajudam a ampliar a presença de professores negros, mas não são suficientes. “Outras políticas também podem ajudar, como tornar a carreira docente mais atrativa, implementar programas de educação antirracista nas escolas e garantir que o material didático valorize a cultura e identidade negra.” O estudo indica que representatividade, quando sustentada por políticas públicas, tem impacto concreto e duradouro.
Fonte: Folha de São Paulo
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