Lançado em maio de 2025, o Atlas da Avaliação, plataforma on-line criada pelo Research on Research Institute (RoRI), no Reino Unido, reúne informações detalhadas sobre como diferentes países avaliam o desempenho de pesquisadores e instituições científicas. O levantamento já mapeou os modelos nacionais de 17 países e permite visualizar tanto suas características atuais quanto as mudanças ocorridas ao longo do tempo. A proposta não é apontar vencedores, mas oferecer uma visão comparativa que ajude a entender prioridades, escolhas metodológicas e efeitos desses sistemas sobre a produção científica.
Com filtros interativos, o Atlas permite identificar, por exemplo, quais países utilizam avaliações institucionais para orientar a alocação de recursos públicos. Nesse grupo estão México, Portugal, Itália, China, Austrália, Polônia, República Tcheca, Letônia, Reino Unido e Brasil. Em outros casos, como Índia e Colômbia, os sistemas têm função mais descritiva, voltada à produção de estatísticas e ao acompanhamento geral da atividade científica. Já a avaliação individual de pesquisadores aparece com mais peso em países como México, Colômbia, Argentina e China.
Uma das constatações do mapeamento é que alguns países combinam múltiplos instrumentos. A China é o exemplo mais complexo, com quatro sistemas que se complementam. A Avaliação Nacional de Disciplinas examina o desempenho coletivo de pesquisadores por área em ciclos de quatro a cinco anos, com adesão voluntária das instituições. Já o Plano Double First-Class, lançado em 2015, influencia diretamente o financiamento de universidades e áreas consideradas estratégicas para alcançar padrão internacional até 2050. Há ainda mecanismos específicos para apoiar pesquisadores de destaque, com salários mais altos e infraestrutura, além de um sistema que avalia mais de 100 institutos ligados à Academia Chinesa de Ciências, base para a distribuição de recursos.
A Polônia também adota uma arquitetura múltipla. Dois sistemas têm impacto direto no financiamento, um focado na qualidade da pesquisa universitária e outro no desempenho institucional mais amplo, que considera, por exemplo, número de estudantes e iniciativas de internacionalização. Um terceiro mecanismo identifica as universidades com melhores indicadores científicos, garantindo aporte adicional às dez mais bem avaliadas.
Entre os países com sistemas unificados, o Reino Unido se destaca com o Research Excellence Framework (Ref). O modelo analisa a qualidade e o impacto da pesquisa das instituições de ensino superior, além do ambiente oferecido aos pesquisadores. Embora a participação seja voluntária, ela é praticamente universal, dado o peso do Ref na reputação institucional e na distribuição anual de mais de £ 2 bilhões. Cada pesquisador pode submeter até quatro trabalhos considerados mais relevantes. O último ciclo foi divulgado em 2022 e o próximo está previsto para 2029. O formato britânico influenciou iniciativas em países como Portugal, Itália, Noruega e Eslováquia.
No Brasil, a avaliação da pós-graduação é conduzida desde 1976 pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O processo ocorre em ciclos quadrienais e orienta a distribuição de bolsas e recursos para programas de mestrado e doutorado. No ciclo mais recente, divulgado em 2022, 4.512 programas submeteram 4,7 milhões de produções intelectuais referentes ao período de 2017 a 2020. Os programas recebem notas de 3 a 7, sendo 3 o mínimo para funcionamento e 6 e 7 indicativos de excelência e competitividade internacional. A divulgação dos resultados do ciclo 2021-2024 está prevista para janeiro de 2026. O país também conta com as bolsas de produtividade do CNPq, que avaliam pesquisadores individualmente. Em 2025, eram 17.080 bolsistas, além de mecanismos estaduais mantidos pelas fundações de amparo à pesquisa.
Mudanças históricas e novos paradigmas
O Atlas foi estruturado a partir de um relatório publicado em maio de 2025, assinado por 26 pesquisadores de diferentes países. Um deles é Sergio Salles-Filho, da Universidade Estadual de Campinas. “Ao definir os critérios das avaliações, os sistemas influenciam o comportamento dos pesquisadores e suas organizações e, de certa forma, moldam o que vai acontecer no mundo da ciência”, observa. O estudo identificou três grandes momentos históricos. Até boa parte do século XX, predominava a avaliação por áreas disciplinares. Nos anos 1990, ganharam força modelos baseados em produtividade e competição por recursos, ainda dominantes. Mais recentemente, cresce o debate sobre a chamada avaliação responsável, que busca incorporar impactos sociais, econômicos e educacionais da pesquisa.
Esse movimento dialoga com iniciativas internacionais como a Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa, de 2013, o Manifesto de Leiden, de 2015, e a Coalition for Advancing Research Assessment, lançada em 2022. Um exemplo concreto é o modelo dos Países Baixos. O protocolo vigente entre 2021 e 2027 proíbe o uso do fator de impacto e exige justificativa para empregar o índice-h. Apesar disso, seu efeito sobre o financiamento é limitado. “Nos Países Baixos, praticamente não há impacto direto da avaliação no financiamento de grupos de pesquisa ou departamentos de universidades”, explica André Brasil, pesquisador da Universidade de Leiden e servidor da Capes.
Segundo ele, o foco está na análise das estratégias das unidades de pesquisa, combinando autoavaliação e pareceres de comissões internacionais. Resultados negativos, como projetos que não atingiram os objetivos, são considerados parte do processo científico. “É um modelo interessante. Funciona bem em um país pequeno, com um sistema integrado e um nível de investimento em pesquisa proporcionalmente mais alto do que no Brasil. Como a avaliação interfere pouco na distribuição de recursos geralmente escassos, ela se torna um exercício de aprendizagem e reflexão”, afirma.
No Brasil, a Capes começa a incorporar alguns desses princípios. O Qualis-periódicos deixará de ser usado como critério central, e ganham espaço os chamados casos de impacto, relatos sobre efeitos científicos, sociais, econômicos ou em políticas públicas. Para Jacques Marcovitch, ex-reitor da USP, essa mudança aproxima a pós-graduação da sociedade. “Hoje, só se pede a um doutorando ou mestrando para realizar sua pesquisa e publicá-la. Mas será que essa produção alcança ministérios, prefeituras, empresas ou ONG?”, questiona. “Se o estudante fizer uma síntese de quatro páginas, narrando o efeito que seu trabalho pode produzir na sociedade, é mais provável que seja levado em conta por tomadores de decisão.”
Marcovitch coordena o Projeto Métricas, apoiado pela FAPESP, e vê o Atlas como uma ferramenta útil para comparação internacional, embora defenda sua ampliação. Para ele, o desafio futuro é avançar não apenas na forma como a ciência é avaliada, mas em como seus resultados chegam, de fato, à sociedade.
Fonte: Nexo
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